Há temas que me têm gradualmente despertado o interesse ao longo destes últimos anos, e que me ocupam a mente em alguns dos meus momentos de reflexão pessoal. Um desses temas é algo que eu penso que nos interessa a todos de uma forma ou de outra, porque é algo que nos afecta a todos e que conhecemos bem. Falo da linguagem utilizada por nós.

Nós, não os portugueses, mas sim a própria humanidade. De que formas é que esta fascinante coisa a que nós chamamos de linguagem nos afecta? É um tema vasto, é certo, por isso mesmo não me proponho a falar sobre todas as suas especificações, ou discutir todas as teorias formuladas ao longo dos séculos por filósofos, linguistas e cientistas.

Em vez disso, pretendo ter como ponto de partida histórias e experiências pessoais, para poder elaborar uma análise à volta delas. Deste modo, com sorte, poderei reflectir e compreendê-las melhor, mas também poderei partilhar as minhas próprias ideias sobre como a Linguagem nos pode influenciar e afectar os nossos pensamentos e formas de percepcionar o mundo.

Mas antes de prosseguir, é fundamental que se esclareça exactamente o que quero dizer quando uso a palavra “Linguagem”.

Linguagem: Entre as várias características que nos definem enquanto seres humanos encontra-se a nossa capacidade de comunicar entre nós recorrendo ao uso de uma linguagem complexa e flexível, com um enorme poder expressivo. Há quem argumente[1] que o termo linguagem é exclusivamente pertencente ao ser humano, e que mesmo as formas de comunicação animal que conseguem exibir elevados níveis de sofisticação não devem ser chamados de linguagem, mas sim de sistemas de sinais. De facto, uma breve pesquisa pelo termo leva-nos a encontrar várias definições, cada uma com as suas diferentes nuances. Se eu vou focar-me nesse termo, é importante desde já deixar claro ao que me estou a referir quando o uso: a definição que eu vou atribuir a “linguagem” neste texto é a referente ao «método de comunicação humana, quer falado ou escrito, consistindo no uso de palavras de forma estruturada e convencional»[2]

Como disse, aquilo que me compele a escrever este texto nasce do desejo de querer explorar uma combinação de experiências pelas quais passo e/ou já passei, e que me fazem questionar a influência da Linguagem na minha vida, e enquanto parte integrante da minha condição humana.

O meu texto será elaborado à volta destas três situações:

– A primeira situação [parte A] é frustrante de natureza, e surge devido à minha fraca capacidade de transformar alguns dos meus pensamentos mais importantes em linguagem de forma eficaz.

– A segunda situação [parte B]  nasce do meu fascínio pelo conceito de telepatia, e da ideia de se poder transmitir informação directamente entre cérebros. E se é verdade que a telepatia é um conceito abordado apenas pelas pseudo-ciências, não sugiro ser preciso aceitá-la como sendo algo real: podemos usar o conceito na mesma como base de comparação, de modo a apontar algumas ineficiências do uso da Linguagem.

– A terceira situação [parte C] ocorreu em 2007, quando experienciei algo de natureza transcendental (penso ter experienciado por breves instantes aquilo que é conhecido por um acordar espiritual). Foi definitivamente um dos um dos momentos mais marcantes da minha vida e ocorreu enquanto eu me encontrava sossegado a contemplar uma árvore. Em retrospectiva, sinto que naquele momento a minha mente deixou de estar presa à Linguagem e atingiu algo mais profundo e puro.

O que se destaca das três situações anteriores é o facto de todas elas se focarem nas limitações que naturalmente nascem da Linguagem, esse objecto imperfeito. Mas não quero ser mal interpretado. Inicialmente o meu texto chamava-se “As Limitações da Linguagem” mas, ironicamente, a escolha de tais palavras estavam a causar limitações na minha própria forma de pensar. Eu não quero transmitir a ideia de que sou anti-Linguagem, e como esse título pré-estabelecia um trajecto de argumentação que se afastava daquilo que eu realmente queria falar, mudei para o título actual. E claro que aprecio a existência da Linguagem. Não nos esqueçamos do espantoso facto que é conseguirmos recriar “sons com a nossa boca capazes de causar novas combinações de ideias nas mentes de outras pessoas.”[3]

[Parte A]

O facto de termos o acesso a um vasto leque de vocabulário, pronto a ser usado para descrever os nossos pensamentos, não impede que a nossa linguagem não seja, simultaneamente, algo frágil.

Por um dos motivos:

  1. Por fragilidade da própria Linguagem;
  2. Por sua ineficaz utilização;

Analisemos alguns desses problemas:

– Diferentes Interpretações [A Essencialidade de Definições]

Não deixa de ser interessante o facto de ter sido necessário definir “linguagem” antes de se ter podido continuar com o texto. Não fazê-lo poderia abrir portas a possíveis confusões e más interpretações.

Por exemplo, se há quem interprete “linguagem” como um conceito que engloba o sistema de comunicação avançado que os golfinhos ou os cães-de-pradaria usam para comunicar entre si; ou se há quem possa pensar que eu posso estar a referir-me também a “linguagens de programação”, então é bom deixar claro logo desde início que não é nessas definições em que vou basear o meu texto.

E se, por um lado, admito que este exemplo possa parecer um pouco forçado (a maior parte das pessoas sabe ao que me refiro quando uso a palavra), há outros casos críticos, onde estabelecer uma definição antes de um argumento ser feito é fulcral. Se considerarmos termos originários da Religião e do Esoterismo, podemos encontrar vários exemplos. De facto, foi a própria palavra “Deus” que inicialmente me fez realmente pensar sobre este cuidado a ter com as definições.

Não é de surpreender que áreas que recorram ao uso de Lógica, tenham particular atenção possíveis ambiguidades linguísticas que surjam num argumento. Uma falácia de ambiguidade ocorre quando há mais do que um sentido para a mesma palavra[4]. Vejamos o seguinte exemplo:

  • Romances realmente interessantes são raros;
  • Livros raros são caros;
  • Portanto, romances realmente interessantes são caros;

Aqui a falácia surge quando se assume que a palavra “raros” significam o mesmo em ambas as premissas. Claramente que na primeira premissa, o adjectivo “raro” refere-se à ideia de que num mundo onde existem, e continuam constantemente a ser escritos tantos romances, é difícil encontrar aqueles que realmente se destacam em qualidade. Na segunda premissa, o adjectivo “raro” refere-se a livros que possuem valor histórico e/ou cuja disponibilidade no mercado é reduzida. Falhar nesta distinção de definições é falhar num argumento.

É, no entanto, recorrendo à própria linguagem que se tenta contornar este seu problema. Se eu ouvir a palavra “Deus”, posso não saber ao certo a que se refere, mas se eu ouvir “Deus Abraâmico”, já sei ao que se refere. Se ainda assim não o souber, posso sempre saber através de uma definição por extenso: o deus em que as religiões judaicas, cristãs e islâmicas acreditam. Claro que recorrer à uma linguagem para tentar corrigir os seus próprios erros pode fazer com que se incorra, pelo menos em teoria, numa regressão de eterna indefinição, onde as palavras usadas na explicação por extenso são elas próprias ambíguas.

Talvez por isso Platão tenha dito que “de forma a uma língua ser verdadeira, deve procurar representar as eternas ideias pré-existentes no mundo da forma mais precisa possível”[12]. E mesmo que a Teoria das Ideias de Platão não seja filosoficamente popular nos dias de hoje, a importância atribuída por ele à existência de uma língua verdadeira aponta-nos para um tema que parece ser intemporalmente relevante.

– Dependência Do Estado Mental

Sendo a Linguagem um produto do nosso cérebro, esta está inteiramente dependente do seu bom funcionamento para poder ser usada da melhor e mais eficaz forma. Basta algumas horas de sono a menos, e o vocabulário acessível pelo cérebro torna-se consideravelmente reduzido.[5] Mas qualquer situação que provoque disrupção do funcionamento normal do cérebro pode causar uma comunicação linguística deficiente – o nervosismo de uma apresentação em público, o stress causado pela tentativa de vocalizar um argumento apenas previamente ensaiado mentalmente, ou até a presença de um gravador de áudio numa conversa podem baixar bastante a qualidade da Linguagem enquanto meio de comunicação.

– Limitação Vocabular

Esta limitação ocorre quando existe uma palavra para descrever algo, mas a pessoa não a conhece. Devido ao extenso número de palavras que existem numa determinada Língua, é impossível conhecê-las a todas.

Desconhecer uma palavra limita uma pessoa em duas maneiras:

  1. Ao ouvi-la, não consegue compreender ao que se refere, e requer uma explicação mais extensa. Isto pode acontecer mesmo que se a pessoa conheça e compreenda perfeitamente o conceito a que a palavra se refere.
  2. Ao tentar explicar algo que poderia ser explicado com apenas uma palavra, essa pessoa necessitará agora de recorrer a uma explicação mais extensa, ou então recorrerá a uma outra palavra menos eficaz na sua explicação.

Neste último caso, podemos usar como exemplo uma frase que eu próprio escrevi:

“O facto de termos o acesso a um vasto leque de vocabulário, pronto a ser usado para descrever os nossos pensamentos, não impede que a nossa linguagem não seja, simultaneamente, algo frágil.”

Eu não estou completamente satisfeito com a palavra “frágil” neste contexto, mas devido às minhas próprias limitações vocabulares não consegui arranjar outra palavra mais eficaz que remetesse para o conceito de “apresentar lacunas e abrir oportunidades para possíveis confusões”.

Este ponto pode ser, obviamente, combatido através de um contínuo estudo e aprendizagem da Língua em questão.

Estes são três dos problemas que contribuem para a primeira situação que eu mencionei: a incapacidade frustrante de querer exprimir algo de forma fidedigna e não ser capaz de o fazer. Mas uma coisa nunca deve ser confundida: ter a linguagem afectada por qualquer um destes problemas não significa que a mensagem transmitida esteja errada. Por outro lado, o uso prístino da linguagem não significa que a mensagem ou argumento subjacente esteja correcto. Dentro dessas duas categorias distintas temos o velho com pobre vocabulário mas sabedoria anciã válida, e o vendedor carismático de banha de cobra.

Note-se que no livro “The Language Instinct”[3], Steven Pinker propõe que um pensamento, na sua forma mais fundamental não é constituído por língua falada mas sim por uma unidade básica de informação analogamente semelhante aos zeros e uns usados pelos computadores. Cada vez que tentamos comunicar através de palavras é necessário converter a informação dessa linguagem mental para a linguagem falada. É sabido[6][7] que vários génios e outras pessoas altamente criativas não têm/tiveram como ponto forte essa conversão, pensando antes sob a forma de conceitos, imagens, notas musicais, ou até com o próprio corpo [7]. Portanto, muitas vezes a Linguagem acaba por ser rejeitada enquanto forma de pensar e expressar, em prol de outras formas.       

[PARTE B]

Outra limitação da linguagem é a de ser necessário incorrer em longas e extensas definições ou argumentos de forma a transmitir uma ideia complexa de forma plena. Imaginemos um mundo em que eu conseguisse arranjar uma palavra ou um símbolo que conseguisse transmitir instantaneamente, palavra a palavra, este meu texto na integra. Duas coisas se tornariam possíveis dessa forma:

  1. Toda a informação ficaria disponível, de modo pragmático, a todos. No nosso mundo, é impossível aceder a toda a informação que existe porque simplesmente não há tempo suficiente numa vida inteira para lê-la ou ouvi-la toda.
  2. Todas as restrições mencionadas na parte A seriam eliminadas.

Actualmente, tais possibilidades linguísticas são-nos inacessíveis.

Mas se a Linguagem falha aí, há quem acredite que outras elusivas formas de comunicação, que preenchem essas lacunas, existem. Nomeadamente a telepatia. O meu objectivo com este texto não é tentar convencer ninguém que a telepatia é real, embora eu acredite que sim. No entanto vamos considerar por momentos, para fins argumentativos, que ela existe, com o objectivo de analisar os aspectos onde a Linguagem falha.

Peguemos novamente no conceito proposto por Steven Pinker. Se é nesta linguagem em que se encontra a forma mais fundamental de pensamento, então conseguir transmiti-la directamente sem a ter que passar por um processo de conversão garantiria uma comunicação sem perdas de informação. Deste modo, não só ideias e conceitos seriam transmitidos de melhor forma, como talvez os nossos próprios sentimentos poderiam ser transmitidos. Se há algo que a Linguagem não consegue fazer é transmitir um sentimento, tal como ele é. Pode aludir a ele, mas nunca o consegue fazer directamente.

Esta é uma tragédia mas também uma bênção que a Linguagem nos trás. Tragédia, porque não conseguir verdadeiramente mostrar aos outros como nos sentimos pode ser a fonte de um grande isolamento; mas uma bênção porque pode tornar-se na força impulsionadora que leva uma pessoa ser criativa e a criar arte, por exemplo. Arte é, muitas das vezes, uma conversão alternativa de um sentimento intransmissível em algo concreto no mundo físico.

Ou seja, se considero a Linguagem como um veículo imperfeito para nos conectarmos verdadeiramente enquanto seres humanos, penso que é também isso que contribui para criar em nós o desejo de encontrar alternativas. Sendo assim, a imperfeição da Linguagem pode acabar por enriquecer a experiência humana de outras formas.

 [PARTE C]

Quem conhece Fernando Pessoa conhece obrigatoriamente um dos seus principais heterónimos, Alberto Caeiro. Esse sempre foi o meu heterónimo favorito, pela sua forma como encarava o mundo, e a sua relação com a linguagem. Relembremos algumas das suas características[8]:

  • Negação da metafísica e valorização da aquisição do conhecimento através das sensações não intelectualizadasé contra a interpretação do real pela inteligência;
  • Negação de si mesmo;
  • Só se importa em ver de forma objectiva e natural a realidade, com a qual contacta a todo o momento. Daí o seu desejo de integração e de comunhão com a natureza.
  • “Pensar” é estar doente dos olhos. Ver é conhecer e compreender o mundo, por isso, pensa vendo e ouvindo. Recusa o pensamento metafísico, afirmando que “pensar é não compreender”.
  • Poeta da Natureza que está de acordo com ela e a vê na sua constante renovação. E porque só existe a realidade, o tempo é a ausência de tempo, sem passado, presente ou futuro, pois todos os instantes são a unidade do tempo.

Com tal complexo heterónimo em mente, foquemo-nos novamente na história que nos trouxe até aqui: em 2007, contemplei uma árvore naquele que creio ter sido o seu estado mais essencial. Percepcionei o mundo de forma não-intelectualizada, e totalmente livre de linguagem.

Porque, se a um nível mais fundamental (como sugerido por Steven Pinker), os pensamentos surgem numa etapa pré-linguagem, o facto é o de que a maior parte dos pensamentos das pessoas acabam por se transformar em Linguagem[9] a um nível superior, mesmo que este não chegue a ser exteriorizado. E essa conversão acontece quase sempre fora do nosso controlo.

A Linguagem parece sempre querer infiltrar-se na nossa mente. Uma vez associada uma palavra (- um rótulo, uma barreira -) a um conceito, este torna-se imediatamente restringido. A palavra e o conceito tendem a tornar-se indissociáveis. Uma vez presente uma palavra na nossa mente, corre-se o risco de ela trazer consigo outras informações, outros conceitos, outras conotações, outras memórias, tudo por associação. Isto é, na minha opinião, um exemplo de intelectualização de uma sensação, um obstáculo que nos impede de ver o mundo da sua forma mais fundamental: o mundo como ele realmente é.

 [Pensamentos Finais]

Mas valerá a pena fazer um esforço explicito para tentar encontrar alternativas ou melhoramentos[10] à Linguagem? Creio que não. Steven Pinker afirma que tal como é natural para a aranha fazer teias, é natural para nós comunicar através de Linguagem[3], e tentar modificar isso é tentar alterar grande parte daquilo que nos torna humanos. Robôs artificialmente inteligentes, no futuro, terão certamente a oportunidade de comunicar através de uma linguagem precisa e sem margem para erros. Nós, por outro lado, somos ambíguos e subjectivos por natureza[11], e não aceitar isso é não aceitar a nossa própria humanidade.

A Linguagem traz com ela limitações e potencialidades, e trabalhar numa compreensão disso foi o objectivo do meu texto. Uma vez aí, cada um que faz o que melhor entender com essa informação. Eu pessoalmente, pretendo usá-la para continuar a viver na fina linha que se encontra entre a aceitação da condição humana, e a busca pelo transcendente.

Bibliografia, Webgrafia  

[1] MARTINELLI, Dario – Introduction to Zoosemiotics, Springer Science+Business Media B.V. 2010 doi:10.1007/978-90-481-9249-6_1

[2] http://www.oxforddictionaries.com/definition/english/language

[3] – PINKER, Steven – The Language Instinct, Penguin; New Ed edition (30 Mar 1995), ISBN-10: 0140175296

[4] http://www.philosophypages.com/lg/e06c.htm#amb

[5] http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2656292/

[6] http://www.pitt.edu/~jdnorton/Goodies/Einstein_think/

[7] https://www.youtube.com/watch?v=3QcffRCJMLk

[8] http://www.prof2000.pt/users/jsafonso/port/caeiro.htm

[9] http://www.linguisticsociety.org/content/does-language-i-speak-influence-way-i-think

[10]http://en.wikipedia.org/wiki/Engineered_language

[11] – BOURDEAU, Jean Ovide – Purpose Unknown: On the Ambiguity of Earthly Existence, Lulu Press Inc; Edition 5 (2014), ISBN: 978-1-105-64712-3[12] MCCOMISKEY, Bruce. Gorgias and the New Sophistic Rhetoric. Carbondale and Edwardsville: Southern Illinois University Press, 2001. ISBN-10: 0809331365

Nós, a Linguagem e o Mundo
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