1. Inteligência Artificial: um Ponto da Situação

Desde que se deu a explosão da Inteligência Artificial nesta última década, várias experiências intrigantes surgiram. Na China, um algoritmo analisou grandes quantidades de fotografias de criminosos conhecidos, e encontrou simetrias e proporções faciais comuns a todos eles. Mais impressionante do que isso foi esses padrões terem permitido analisar novos retratos e conseguir separar com 90% de precisão os criminosos dos cidadãos normais.

Também já sabemos que a Inteligência Artificial pode prever a nossa personalidade através de uma análise dos movimentos dos nossos olhos.  Ou a nossa idade ou orientação sexual também através de uma fotografia. Tanto nestes, como noutros casos, os algoritmos têm alcançado capacidades de previsão impressionantes.

Mas não ficamos por aqui. Estes exemplos baseiam-se na aparência física, mas quando passamos para previsões baseadas em comportamentos, muitos mais padrões previamente indetectáveis são descobertos.

Um supermercado com acesso às informações de compra dos seus clientes adquire um poder de previsão espantoso. Por exemplo, um algoritmo passa a conseguir detectar pequenas mudanças nos hábitos de compra de uma cliente, e concluir com alta probabilidade que ela se encontra grávida. Um dos padrões revelados foi o de que mulheres no início do segundo trimestre passam a comprar loções sem cheiro.

Também sabemos que o Facebook não precisa mais do que os nossos likes para prever com elevada precisão a nossa orientação sexual, satisfação com a vida, nível de inteligência, estabilidade emocional, religião, nível de uso de álcool e drogas, estado civil, idade, género, etnia, orientação política, entre outros atributos.

O que é que isto nos diz sobre nós? Que somos previsíveis e que as nossas escolhas íntimas e altamente pessoais são adivinhadas de antemão por algoritmos.

Por outras palavras, a Inteligência Artificial veio confirmar o que os mais atentos sempre souberam: que não temos livre-arbítrio.

Isto não tem de ser necessariamente algo terrível. Sim, é possível deixarmos este conhecimento conduzir-nos a uma crise existencial; mas também é possível usá-lo como uma ferramenta de melhor compreensão daquilo que nós somos.

Mas independentemente do que decidimos fazer com esta informação, a verdade é que as grandes empresas de tecnologia não perderam tempo a usá-la para proveito próprio.

2. A Tecnologia num Mundo de Causa-Efeito

A Inteligência Artificial tem demonstrado um potencial inacreditável. É a tecnologia que permite à Tesla criar automóveis com capacidades incríveis de evitamento de acidentes. É a tecnologia que permite detectar insuficiência cardíaca com eficácia de 100% analisando um único batimento cardíaco de um electrocardiograma. É a tecnologia que permite reduzir em seis anos o tempo necessário para diagnosticar Alzheimer.

No entanto, esta é só uma análise parcial. Não se pode esperar que um fenómeno com este poder disruptivo tenha, por milagre, apenas implicações positivas na sociedade.

Publicidade-Personalizada, Introdução

Nos últimos 15 anos, empresas como o Google e Facebook estabeleceram-se como plataformas de referência, recolhendo todo o tipo de informações sobre nós nesse processo.

Com a Inteligência Artificial, tornou-se possível utilizar esses dados para se alcançar aquilo que é conhecido como publicidade personalizada. Ao se saber algumas coisas sobre nós – coisas essas que fazemos questão de fornecer voluntariamente– os algoritmos destas empresas conseguem prever muitas outras. Cria-se assim um perfil comportamental sobre nós.

Todas estas informações são então bem organizadas e catalogadas, permitindo assim a outras empresas publicitarem-nos os seus produtos de forma mais focada. Quanto mais um algoritmo sabe sobre nós, mais eficazes as suas recomendações e publicidade se tornam.

Seguindo esta lógica ao seu extremo, se se soubesse absolutamente tudo sobre nós, seria possível alcançar uma taxa de eficiência de 100% para cada anúncio mostrado. Se o algoritmo soubesse que o meu estado emocional era A, o meu saldo bancário era B, o meu estado civil ontem era C mas hoje é D, e por aí fora, então ser-me-ia mostrado anúncio X. E eu estaria forçado pelas leis da Física a clicar nele, embora o fizesse sob a ilusão de que a escolha tinha sido minha.

Mas qual é o problema de receber anúncios personalizados? Não é melhor receber conteúdo que me é relevante em vez de coisas que não interessam? Bem, antes de responder a isso é preciso perceber que a nossa sociedade tem um problema em mãos.

Uma Crise Existencial Colectiva

A sociedade moderna enfrenta uma crise existencial. Três causas parecem-me evidentes:

Causa 01: Avanços Científicos, Secularismo

O progresso científico pode revelar informações disruptivas às nossas crenças pessoais. Ainda antes da Inteligência Artificial o confirmar, já a Física nos tinha mostrado que vivemos num mundo incompatível com o livre-arbítrio. Também Deus, na sua definição tradicional, não se parece enquadrar naquilo que sabemos sobre o Universo.

Causa 02: Preocupação com o Futuro

Sabemos que as novas gerações têm alguns receios no que toca ao seu futuro, dificultando assim a adopção de uma atitude positiva. Dos factores que contribuem para isso, podemos encontrar dois importantes:

Em primeiro lugar, os empregos que restam, aqueles que ainda não foram roubados pela Inteligência Artificial ou Automação, são precários e instáveis, e oferecem um poder de compra inferior ao que havia nas gerações anteriores.

Em segundo lugar, a possibilidade de as alterações climáticas poderem vir a reduzir a qualidade de vida no planeta nas próximas décadas também não produz muita esperança no futuro, nem à elaboração de planos de vida  muito ambiciosos.

Causa 03: Ecrãs

O uso de ecrãs contribui para a degradação da nossa visão do mundo, saúde mental e encorajamento ao isolamento social. Por exemplo:

1. Sabemos que as redes sociais, e a Internet em geral, nos expõem constantemente a notícias sobre problemas e violência, criando a ilusão de que vivemos num mundo cada vez mais violento, quando a verdade é o oposto.

2. Sabemos que o uso de redes sociais causa o medo de não estarmos a aproveitar a vida o suficiente, ao sermos expostos constantemente às experiências positivas dos nossos contactos– experiências essas altamente seleccionadas, dando assim a ilusão que vivem a vida perfeita. Essa constante comparação provoca-nos sentimentos de inadequabilidade.

3. Sabemos que o uso das redes sociais conduz à produção desregulada de dopamina. Que quando há quem goste do que partilhamos, somos recompensados com essa hormona e que quando ninguém gosta do que partilhamos, ficamos ansiosos e sentimo-nos indesejados.

4. Sabemos que o uso excessivo de videojogos provoca a degradação dos relacionamentos pessoais com os outros; e que tantos os videojogos como as redes sociais podem dar a ilusão de serem um substituto adequado às amizades no mundo real, contribuindo assim para o isolamento social dos utilizadores.

5. E sabemos que a saúde mental dos jovens tem declinado nos últimos 15 anos. As taxas de suicídios no mundo estão a subir, e afectam mais os jovens. O uso de redes sociais é consistentemente apontado como um dos factores que mais contribui para tal.

Estas são 3 das causas que nos têm levado à nossa crise espiritual. Esse estado desconfortável faz-nos desesperadamente procurar por refúgios para a mente. Alguns desses refúgios são:

Refúgio 01: Religião

A Religião sempre foi o grande antídoto contra o Niilismo. Mas vivemos numa sociedade crescentemente secular, e a Religião passou a ser vista como impopular e antiquada. E à medida que a Inteligência Artificial vai tornando mais claro que o livre-arbítrio não existe, torna-se mais difícil recorrer a este refúgio.

Esta e outras incompatibilidades irão forçar as religiões dependentes do livre-arbítrio a modernizarem-se rapidamente, correndo o risco de se tornarem completamente irrelevantes se não o fizerem.

Refúgio 02: Ideologia Política

No livro “O Eu Desconhecido”, Carl Jung refere que, falhando a Religião, esta tende a ressurgir sob uma nova forma – a das ideologias políticas, sendo capaz de criar o mesmo nível de fervor religioso por parte das massas.

A adopção de uma visão do mundo baseada em ideologia rígida destrói o pensamento sofisticado, a possibilidade de participar em discurso construtivo, criando climas altamente divisivos e enfraquecendo o tecido social.

Refúgio 03: Entretenimento

Recorrer a entretenimento é uma forma de anestesia voluntária da mente. Uma mente anestesiada é preferível a uma mente aborrecida, pois assim esta não se preocupa nem com os problemas quotidianos nem com os existenciais.

Por outro lado, numa sociedade niilista, o entretenimento permite ao espectador superar temporariamente a falta de sentido que tem na sua vida ao preenchê-la com o sentido da vida do protagonista.

Refúgio 04: Redes Sociais

Já se mencionou que as redes sociais conduzem a uma produção desregulada de dopamina no cérebro. Dopamina é uma das “hormonas da felicidade”. A sua libertação no nosso cérebro faz-nos sentir bem nesse momento – precisamente aquilo que queremos sentir quando nos estamos a sentir deprimidos e niilistas.

As grandes empresas sabem perfeitamente disto, e trabalham constantemente para optimizar as suas plataformas de modo a tornar-nos cada vez mais viciados nelas.

Refúgio 05: Consumismo:

Vivemos numa sociedade onde se valorizam bens materiais e onde a busca do prazer passa pela sua aquisição. Isto não é surpreendente, já que sabemos que consumo de bens materiais é uma forma fácil de aumentar os nossos níveis de felicidade, desde que se adeqúem à nossa personalidade. Coincidentemente, produtos adequados à nossa personalidade é precisamente aquilo que a publicidade-personalizada coloca em frente aos nossos olhos.

Publicidade-Personalizada, Continuação

Estamos agora prontos para regressar à pergunta inicial: qual é o problema de receber anúncios personalizados? Não é melhor receber conteúdo que me é relevante em vez de coisas que não interessam?

Há uma diferença entre querer comprar uma coisa e precisar de secomprar uma coisa. Muitos de nós já “gastamos dinheiro que não temos, para comprar coisas que não precisamos para impressionar pessoas de quem não gostamos”. Isto é especialmente verdade se queremos comprar esses produtos por eles estarem a tirar partido dos nossos pontos fracos, instintos primordiais. ou emoções negativas – coisas que as grandes empresas como o Facebook sabem perfeitamente sobre nós.

Assim, o problema resume-se facilmente em quatro pontos:

  1. As Redes Sociais levam ao Niilismo;
  2. O Niilismo, por sua vez, promove a dependência de Redes Sociais;
  3. O Niilismo também promove o Consumo de Produtos Adaptados à Nossa Personalidade;
  4. As Redes Sociais ganham o seu dinheiro através da promoção de Produtos Adaptados à Nossa Personalidade.

É um ciclo auto-sustentável que tira partido de sermos facilmente manipuláveis.

Mesmo aqueles que não crêem que o problema é assim tão grave, por nunca terem comprado nada online, lembrem-se de duas coisas:

Em primeiro, estas plataformas tecnológicas são altamente viciantes, com o objectivo de maximizarem os seus lucros. Mesmo aqueles que nunca compraram nada online, estão sujeitos à sua natureza viciante de igual modo, e às mudanças estruturais no cérebro que resultam desse vício a longo prazo.

E em segundo lugar, a publicidade recomendada pode não ter como objectivo o consumo de bens materiais, mas sim o consumo de entretenimento, ou até mesmo o de manipulação política e da nossa visão do mundo.

A Evolução Não Fica Pelos Smartphones

Os dois grandes passos tecnológicos com as maiores implicações para as nossas informações pessoais já estão previstos. Estas tecnologias seguem um progresso lógico de acesso à nossa informação: começamos no mundo digital, vamos para o mundo físico, e do mundo físico acabamos no nosso cérebro, a derradeira fronteira da nossa privacidade.

Com a Internet das Coisas, tudo será tecnologia smart: smartphone, smartwatch, smart TV, smart fridge e smart bottle. Outra forma de interpretar a palavra smart é “aparelho que recolhe informações sobre mim e que as envia para os servidores de uma empresa privada”.

Já a ideia de nos unirmos literalmente com as máquinas através de Interfaces Cérebro-Computador pode soar a ficção científica, mas a Neurolink de Elon Musk (fundador da Tesla, SpaceX) planeia testes em humanos já em 2020. O próprio Facebook já revelou detalhes da sua própria ICC. 

Haverá mesmo quem se queira sujeitar a isso? Para responder a isso pergunte-se: a que dá mais valor? Aos seus dados pessoais ou aos benefícios que as apps do seu smartphone lhe trazem? Se os benefícios trazidos pela evolução destas duas tecnologias forem aliciantes o suficiente, o verdadeiro mistério serão aqueles que não aderirem a elas.

Com a Internet das Coisas, se uma peça do seu automóvel se avariar, será pedido o envio de uma peça de substituição ao fornecedor, e será agendada uma ida à oficina tanto com base na disponibilidade da oficina como na sua, tudo isto de forma automática, conveniente e cómoda.

Com uma ICC, os nossos cérberos unir-se-ão literalmente com a Inteligência Artificial, e passaremos a ter inteligência sobre-humana. O que faria ao ver o seu filho com uma inteligência normal num mundo de crianças com um QI de quatro dígitos? Que superpoderes surgirão ao conectar o nosso cérebro directamente à Internet das Coisas?

As tentações são irresistíveis. Aquilo que temos de dar em troca? Todos os nossos dados.

As tecnologias do futuro não só continuarão a sofrer dos mesmos problemas actuais. como irão exacerbá-los:

  1. À medida que a tecnologia se torna mais invasiva e na posse das nossas informações, as recomendações e publicidade-personalizada serão mais relevantes e eficazes, deixando-nos à mercê dos algoritmos que acabarão por servir mais os interesses daqueles que os criaram do que a nós.
  2. E mais importante: se a influência da tecnologia nas nossas vidas já demonstra as suas capacidades de afectar a nossa saúde mental negativamente, não temos razões para crer que multiplicando essa influência exponencialmente não irá causar um aumento semelhante nos níveis de depressão e suicídios.

Muitos dizem que temos que ter livre-arbítrio porque o contrário implicaria “sermos robôs programados”. Ironicamente, quando chegar a oportunidade de podermos verdadeiramente sê-lo, aceitá-la-emos de braços abertos.

“Once men turned their thinking over to machines in the hope that this would set them free. But that only permitted other men with machines to enslave them.” ― Frank Herbert, Dune

3. Conclusão

A renovação de uma sociedade é um processo essencial à sua sobrevivência, caso contrário esta corre o risco de usar regras desactualizadas para resolver desafios modernos. A Geração Y mostra um fosso grande em relação às gerações anteriores no que toca às suas crenças e valores, pelo que sabemos então, que de facto vivemos numa época de renovação.

No entanto, algo correu mal. Através da Ciência e Secularismo, decidimos abandonar os antigos deuses, mas nunca nos apercebermos que estávamos a eleger um novo no processo. O nosso novo deus chama-se Dopamina.

Mas este deus   augura nada de bom. Um rato com acesso a um botão que estimule a produção de dopamina no seu cérebro irá clicar nele perpetuamente, até morrer de fome e exaustão. Felizmente, o ser humano tem mais autocontrolo que um rato, não morrendo após jogar na Internet interruptamente durante 3 dias.

Este é um deus que nos vem matar espiritualmente primeiro.

Nos anos 60 e 70, o investigador John B. Calhoun, conduziu uma experiência conhecida como a Utopia dos Ratos. Nela, o Dr. Calhoun conseguiu mostrar que construir um mundo de abundância e conforto para uma comunidade de ratos resulta sempre, de forma previsível, na degradação da sociedade e no seu colapso.

John B. Calhoun resumiu o motivo do colapso com estas 3 fases:

  1. Utopia (Abundância e Conforto)
  2. Morte Espiritual (Perda de Capacidade de Comportamentos Essenciais à Sobrevivência da Espécie)
  3. Morte Física (Extinção da Espécie)

Para começar, devemos questionar-nos seriamente se não existirá um paralelismo real entre a “perda de capacidade de comportamentos essenciais à sobrevivência da espécie” dos ratos e as tendências comportamentais das nossas sociedades modernas.

Em seguida, é essencial compreender que não é coincidência o Dr. Calhoun ter atribuído uma “morte espiritual” como causa da extinção da população de ratos. A crise espiritual no Homem Moderno não é um tema novo.

“We’re the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War’s a spiritual war… our Great Depression is our lives.” – Fight Club

Eu não sei como é que se ganha esta guerra espiritual. Mas sei como não se ganha.

Talvez uma resposta se encontre no trabalho de vida de Carl Jung, que coincidentemente escreveu um livro intitulado “Homem Moderno em Busca de uma Alma”. Segundo ele, a solução para a nossa crise espiritual reside naquilo que ele chamou de Individuação: o processo de confrontar voluntariamente o conteúdo reprimido do nosso Inconsciente e integrá-lo no Consciente. Não fazê-lo resulta num conjunto de patologias psicológicas que não servem os nossos melhores interesses, tais como neurose, depressão, ansiedade, entre outras.

“Até se integrar o Inconsciente no Consciente, ele irá ditar a nossa vida, fazendo-nos crer que é esse o nosso destino” – CG Jung

Sábios de todas as épocas, de todas as regiões, de todas as religiões, e com abordagens semelhantes ou nem tanto, têm apontado o autodomínio como o objectivo primordial do ser humano. Jung; Nietzsche; Marco Aurélio; Patandjáli; Cristo; Buddha. Todos o disseram. Talvez devêssemos começar a ouvir?

Sem autodomínio, nunca estaremos bem connosco próprios. Continuaremos à procura de respostas onde elas não existem, apenas soluções superficiais.

Sem autodomínio, estaremos também condenados a transmitir as nossas patologias às gerações seguintes do mesmo modo que as gerações anteriores fizeram connosco, perpetuando assim o ciclo.

Já provámos que não sabemos lidar com a tecnologia que usamos actualmente. No que nos tornaremos quando essa influência tecnológica acelerar exponencialmente, já num futuro mesmo muito próximo?

Se nos sentirmos optimistas, e acreditarmos ainda não é tarde demais para voltar atrás, então talvez seja altura de começar a ganhar a maturidade psicológica e espiritual para conseguirmos lidar colectivamente de forma responsável, saudável e construtiva com aquilo que a Tecnologia nos vai trazer, aproveitando o que ela nos trouxer de bom, evitando cair nas suas armadilhas, e mantendo assim uma simbiose estável entre ela, nós e a Natureza.

O Nosso Novo Deus

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